sexta-feira, 9 de março de 2012

Sérgio Cabral, médico bom-despachense é entrevistado pelo jornal O Tempo

Mineiro ultrapassa limites e realiza ajuda humanitária
Pediatra já participou de 16 missões em vários lugares do mundo
(Publicado no Jornal OTEMPO em 09/03/2012)

"O trabalho na organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) é como uma cachaça - às vezes, desce redonda, às vezes desce amarga -, mas a gente sempre pede a próxima dose", brinca o pediatra Sérgio Cabral, 45,de Bom Despacho, no Centro-Oeste de Minas.
O médico mineiro já trabalhou em 16 projetos da instituição internacional de ajuda humanitária em países como Camboja, Sudão, Colômbia, Haiti, Serra Leoa, Afeganistão, Líbia, Líbano, Somália e, também, no Brasil.

A decisão de participar da equipe foi tomada em 2007, quando ele largou o consultório de pediatria e os trabalhos em hospitais públicos. "Meu sonho sempre foi o de entrar nesse mundo humanitário. Mas, diferentemente do que as pessoas pensam, não é uma aventura. É um trabalho médico muito pesado", conta.

Em locais com grande demanda de pacientes, como na Somália e no Afeganistão, não há um período de trabalho específico e os profissionais chegam a trabalhar 24 horas por dia. Os locais de atendimento também são variados. Em alguns, como no Sudão, os médicos trabalhavam debaixo de árvores. "Lá, tentávamos achar árvores maiores, o que era difícil por ser uma região desértica, e colocávamos uma telinha. Depois, pedíamos para o pessoal organizar as filas para o atendimento, também debaixo de árvores". Às vezes, a equipe opta pela alternativa de barracas, os "hospitais infláveis", e, dependendo do local, constrói unidades de madeira.

De acordo com Cabral, cada projeto tem características distintas. "Trabalhamos com as catástrofes, sejam elas naturais ou humanas. O conflito armado nada mais é que uma catástrofe humana. Mas também trabalhamos em muitos locais de epidemia, de fome, de doença, de negligência", afirma.

Após o terremoto do Haiti, em 2010, cerca de 8.000 profissionais da MSF chegaram ao país para combater a epidemia de cólera, que assombrou os quase 10 milhões de haitianos, dentre os quais apenas 12% tinham acesso a água tratada. Mais de 3.000 pessoas morreram vítimas da doença. "O Haiti é um país muito pobre. Com o cólera, veio um agravante a mais. Eu estava trabalhando com a pediatria e tinha 75 leitos. Todo dia chegava muita criança em choque. Era uma demanda imensa".

Zonas de guerra. Em países que vivem conflitos armados, o trabalho vai além do paciente. Os médicos precisam lidar com o estresse dos riscos dos locais. "Precisamos seguir muitas regras. É necessária muita cautela. Temos que trabalhar sempre dentro de normas para que as pessoas nos entendam e percebam de uma boa forma".

Em um dos projetos que participou no Sudão, Cabral esteve na região de Abyei, na fronteira com o Sudão do Sul, na zona mais quente do conflito. "Havia muita gente armada, muito tiroteio, tínhamos preocupação de como se locomover. Estávamos em alerta o tempo todo. Não podíamos nos envolver. Na verdade, você nem sabe de que lado as pessoas estão".

Princípios. De acordo com a organização, alguns princípios devem ser sempre seguidos: a imparcialidade, a neutralidade e a independência. "Estamos ali sempre seguindo os pilares da MSF. O objetivo é o paciente. Sabemos que qualquer pessoa doente é um paciente. Nós não olhamos de onde vem, quem é, não nos envolvemos em política".

Mas nem sempre as regras são suficientes. Eventualmente, pessoas que estão envolvidas no conflito não conseguem entender o propósito das organizações humanitárias e acabam rompendo o mínimo de segurança que os profissionais deveriam ter. "Às vezes, estamos pisando em casca de ovo. Já tivemos problema na cidade de Pibor, no Sudão, quando um grupo de rebeldes atacou nosso ‘staff’ e comprometeu nosso hospital. Tivemos que sair da cidade".

Entre um projeto e outro, Sérgio volta para o interior de Minas para descansar. Ele diz que sempre precisa se readaptar, até com as pequenas coisas, como um chuveiro de água quente.

O médico não sabe até quando pretende continuar na MSF, mas, por enquanto, sente-se bem. "Algumas pessoas me falam: ‘Vocês ganham mal e trabalham sob risco’. Mas tudo vale a pena quando você recebe o sorriso do paciente, quando uma criança segura sua mão ou quando a mãe dela - que você nem entende o idioma - abraça você e sorri pelo que você fez ".

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